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18:54 Postado por Fernanda Matheus

Para quem não conseguiu descobrir, Solidariedarte é a junção de solidariedade+arte. E isto é o que a Cia Lúmini vem fazendo nestes 15 anos de trabalho levando arte para o público e usando esta mesma ferramenta como elemento de transformação e revolução na vida de uma série de pessoas. O fundador da Lúmini, Sérgio Machado (Serjão), nos apresentou a CIA e o Projeto Social que, como ele mesmo frisa, é a razão da existência da Lúmini.


3cucas- Como surgiu a Lúmini?
SÉRGIO - Começou sem querer. Eu trabalhava no CBPF (Centro brasileiro de pesquisas físicas) medindo distância entre moléculas e procurei a dança como uma questão terapêutica. Eu estava me sentindo isolado do mundo e necessitava me envolver novamente com as pessoas. Só que na época que eu voltei a fazer dança, que era algo que já tinha feito há um tempo, eu já era Físico e tinha essa vontade de juntar um pouco da Física com a Dança e comecei a fazer alguns trabalhos para a faculdade.


Só que estes trabalhos geraram uma repercussão muito grande, e quando me dei conta eu já estava com 10, 12 bailarinos viajando para João Pessoa para disputar um concurso nacional, no qual nós ganhamos o prêmio de melhor espetáculo de dança e melhor pesquisa na dança pelo júri popular. Em 14 de Abril de 1994 nós fundamos a Lúmini


3cucas-Fale um pouco dos espetáculos que foram produzidos neste tempo.
SÉRGIO- Oficialmente, três: Matéria, Ecos e Dança dos Signos.

MATÉRIA - Foi um espetáculo que nasceu sem querer, mas que fala de coisas sérias. A primeira parte fala da relação do homem com a natureza, do amor com a natureza. A segunda parte faz uma crítica social a determinadas questões como “o que é beleza”, retratada na coreografia dos aros, que a gente pega a idéia da perfeição.


Falamos também do extremismo da sociedade em resolver determinadas soluções. A cena das bolinhas que não querem brincar com as mãos e estas mãos pegam um espinho para furar, um canhão para estourar e essa coisa toda que acontece no nosso dia-a-dia. A questão da utilização da mulher como instrumento de sedução de venda de produtos, sempre sendo desvalorizada com várias coisas, com o nosso processo capitalista.

A questão estética da gordinha e da magrinha. E, no final do espetáculo, a gente apresenta um portal formado por figuras geométricas por onde as pessoas podem passar e encontrar um mundo completamente diferente. Que mundo é esse? Depende de cada um de nós. Como interagimos com as coisas, com os problemas. O mundo que eu quero ter começa dentro de cada um de nós. A gente sempre tenta falar de coisas que realmente possam levar uma reflexão as pessoas.


ECOS-GRITOS QUE SE PERDEM - Foi o segundo espetáculo, e foi criado meio que com um sentimento de revolta.Porque na época havia tido uma apresentação do Momix, com um espetáculo muito parecido com o nosso, e, a meu ver, o nosso trabalho não devia nada ao deles, e a mídia deu uma ênfase absurda a um grupo que faz um trabalho há menos tempo e, na minha opinião, inferior ao que nós fazemos, no caso deste trabalho específico que eles trouxeram

Nós somos muito tupiniquins, muito submissos à cultura estrangeira. Você pega o Solei (Cirque du Soleil), e tantos outros grupos que vem aqui e colocam o preço lá em cima e as pessoas pagam, mas são incapazes de pagar R$ 40,00 para assistir um grupo nacional. Então isso me revoltou muito, e o ECOS foi motivado neste ambiente de revolta. Eu queria falar sobre cultura. Na verdade, o eco é a propagação do som e nós fizemos uma metáfora do fenômeno acústico que é o som que se propaga e é refletido no anteparo.

Essa reflexão faz com que o som retorne e reflete em outro anteparo e vai perdendo a intensidade emitida. Isso acontece com a nossa cultura pelo país inteiro. Então nós fizemos um paralelo do que acontece com a cultura e o que acontece com o som. Como é que se começa a contar uma história assim? Como começar a falar da cultura brasileira?

Resolvemos iniciar pelos primeiros residentes aqui, que eram os índios, e fomos pesquisar a cultua indígena, do sertanejo, do negro, mantendo a linha de pesquisa da CIA, de efeitos especiais e essas coisas todas. Fomos procurar elementos e escolhemos a Vitória Régia como elemento para criar um efeito legal, uma pintura que foi tombada pela UNESCO de uma tribo indígena da Amazônia e a lenda da Iati.



Pintamos um figurino com tinta e fizemos a Vitória Régia, que é um instrumento mecânico com uma superfície espelhada e, à medida que incido a luza sobre a vitória regia eu tenho a reflexão com o movimento do bailarino. A lenda da Iati é uma índia que chora até a morte quando vê seu amado, seu guerreiro ir para a guerra. E, nesta marcha, estes guerreiros deixam sulco no serrado e Iati chora até a morte e suas lágrimas entram no sulco do serrado dando origem ao Rio São Francisco.

A partir destes elementos (do índio, da vitória régia, da pintura e dessa lenda) nós decidimos pegar o curso do Rio São Francisco, já que ele começa lá em cima no Norte-Nordeste do país e vem descendo. Então escolhemos o Rio para contar a história. Pegamos elementos do Rio (tipo as lavadeiras do Rio São Francisco, o Nego d’água, Icatu, que é uma cidade que vive do artesanato do barro) e construímos uma mesa de olaria de 2 metros de altura, onde o homem é o barro, porque o homem foi feito do barro segundo a visão bíblica, e a mulher foi criada pelo homem. Então, a mulher desce do alto numa lira dada por Deus ao homem e vão girando os dois num padedeux, num platô giratório, e embaixo tem os quatro elementos necessários para fazer o barro: terra, água, fogo e ar.

Já o Nego d’água eu ficava imaginando como era o amor dele com a lavadeira, e então eu transformo a saia da lavadeira em uma medusa que dança e mostra os dois quando eu quero. Na verdade a gente está falando de cultura brasileira, das coisas do nosso país,tentandovalorizar o que muita gente não conhece. Até chegar na cidade, na selva de pedra, esta selva cinzenta, em que a gente encontra a faixa de pedestre, que você vê as pessoas passando cruzando o sinal. E tem negros, sertanejos, todo tipo de gente, mas todo mundo de terno e gravata e cinzentos, tantos quanto a sua cidade, esquecidos da sua cultura, das suas raízes, todos de uniforme. Então, a gente faz uma crítica a essa situação.

DANÇA DOS SIGNOS - Foi feito com o Oswaldo Montenegro, com uma montagem completamente diferente, com uma estética diferente da que foi feita vinte e poucos anos atrás. Foi uma transformação, pois teve arranjos novos, toda uma estética nova. Ficou um espetáculo completamente diferente: 60 pessoas em cena, orquestra, coral, acrobatas, bailarinos, numa montagem muito cara. Eu acho que raramente o Oswaldo consegue fazer isso novamente do jeito que foi feito.



3cucas- Quanto tempo dura o processo de produção e qual o nome do próximo trabalho?
SÉRGIO- Para o espetáculo pronto, em média, uns cinco anos. Não tem como a gente fazer um espetáculo do tamanho que agente faz, que envolve muita pesquisa, muita estrutura e pouco dinheiro. As estruturas costumam ser caras e nós nunca tivemos muito dinheiro. Por isso que dura esse tempo inteiro. O dia que tiver dinheiro dá para reduzir em 50, 60% esse tempo. Nessas condições, dois anos é um tempo legal para se trabalhar. O próximo espetáculo chama-se Eclipse.

3cucas- Em que cidades e países vocês já se apresentaram?
SÉRGIO -Não tenho a mínima idéia! Só no ano passado nós visitamos quinze cidades. Todo ano nós viajamos muito. Este ano já foram duas idas a São Paulo e estamos nos preparando para a terceira. Fora do país, uma vez para Miami no encerramento do Festival Internacional de Teatro Hispânico e a abertura do Festival de dança da Flórida

3cucas – Como surgiu a idéia do Projeto Social e qual o trabalho mais importante ?
SÉRGIO - A Cia só existe pela possibilidade de realizar o projeto social. Então, sem sombra de dúvidas, o projeto é mais importante. Mas a Cia também tem a sua importância porque ela alimenta o projeto social. Fazer arte, sucesso, nome no jornal, aplauso, não é o meu foco. Isso só faz sentido no contexto que alimenta o projeto social.

Eu acho que isso não é da boca para fora. Antes de fazer arte eu era garimpeiro, ganhava muito dinheiro e não precisaria fazer nada disso que estou fazendo hoje, nem estudar Física. O dinheiro nunca me encheu os olhos, mas eu via muita coisa no mundo que eu queria transformar. Quando ainda morava no Norte do país, duas cenas me marcaram muito. A primeira foi uma mulher com o marido do lado e uma criança no colo, que devia ter uns dois anos e vi ela tirar do decote uma mamadeira com mais da metade cheia de ouro, ela colocou aquilo na balança e deu uns quatro ou cinco quilos de ouro.

Ela saiu com um saco de dinheiro, mas continuou com uma vida medíocre e vivendo na miséria. O segundo acontecimento foi conhecer várias prostitutas em Belém e me tornar amigo delas, ter tido a oportunidade de ir à casa de uma delas. Uma menina de 16 anos se prostituía para alimentar a família e moravam em uma palafita em Belém. Essa foi uma das experiências mais alucinadas que eu tive. Depois daquilo eu falei “Eu tenho que fazer alguma coisa para mudar o mundo”.

Aí fui fazer Física porque achei que podia transformar o mundo. E, durante o meu processo de retorno com a dança, fui fazer uma temporada no Teatro João Caetano e doei ingressos para alguns projetos sociais e moradores de áreas carentes e, para minha surpresa, quando acabou o espetáculo, eu fui falar com as crianças. E a grande maioria falava “Tio, eu quero fazer isso da minha vida” e aquilo foi como uma bigorna caindo na minha cabeça.

Nesse momento eu descobri que era artista e que com a arte eu podia mudar o mundo. Depois disto procurei o laboratório de políticas públicas da Uerj para fazer um projeto social com esta experiência do Teatro João Caetano e dos resultados da CIA. O projeto ficou lindo, mas só tinha dois caminhos para executar este projeto: através de financiamento de políticas públicas ou de recursos próprios.

Nesta época, coincidiu de assistir a uma entrevista no Jô Soares de uma menina de rua que falava “O projeto social aparece durante quatro anos. Apresenta uma luz no fim do túnel para gente e, de repente, pára porque acabou a verba”. Naquele momento eu decidi que não queria depender de política e que iria fazer a CIA crescer para alimentar este projeto.

3cucas – Qual o perfil dos participantes do projeto e como participar?
SÉRGIO - São crianças que vem da Cidade de Deus, Rio das Pedras, Curicica, Vila Autódromo, Beira-Rio, Terreirão, Vargem Grande, Vargem Pequena com idade variando entre 6 e 20 anos . E participam de aulas de canto, percussão, acrobacia, sapateado, trampolim. As aulas acontecem normalmente de segunda a quinta, às vezes de segunda à sexta. Elas saem da escola e vem para cá. Infelizmente a gente não pode dar mais apoio. Quem quiser participar é só vir até aqui e se inscrever.

3cucas - Como o projeto é financiado?
SÉRGIO - Com vários empréstimos meu no banco, colocando meu apartamento como garantia, doando o que eu tenho e o que eu não tenho.
3cucas - Você aceitaria ajuda parao custeio do projeto?
SÉRGIO - Aceitaria, mas, meu grande sonho é queas pessoas entendam que isso aqui é uma coisa séria. Ao invés de colocar os seus filhos para fazer atividade física em x ou y lugar, coloca aqui, pois ele vai ver que o dinheiro vai estar sendo revertido para isso. Na verdade, o que eu quero é que as pessoas tenham consciência que com pequenos gestos como o de colocar o filho aqui, ela pode transformar a vida de outras pessoas. Hoje você viu um exemplo disto que é a Duda (Eduarda Emerick) que a gente só pode ajudar com aulas através do projeto. Eu tenho muito orgulho da Angelina que começou no projeto e hoje é professora no Tecido. Na verdade nós só podemos ajudar porque alguém banca isto aqui.

EDUARDA EMERICK


ANGELINA-PROFESSORA DE TECIDO


3cucas – Vocês estão com dificuldade para manter o projeto?
SÉRGIO – A gente nunca sabe como vai pagar o aluguel do mês seguinte. Eu tenho mais de cinquenta mil reais em empréstimos, um apartamento penhorado. Mas se tivesse mais penhoraria. O retorno que se recebe é tão bom. Você acabou de assistir uma aula. Eu faria tudo de novo. Nós estamos tentando transformar isso aqui num ponto de cultura. Já passamos pela segunda fase do processo, ainda falta uma. Estamos pensando também em um cine clube.

3cucas – As turmas são mistas com alunos do projeto e pagantes?
SÉRGIO - Em algumas aulas como Sapateado, Acrobacia Aérea.


3cucas – Existe algum tipo de preconceito por parte dos alunos ou dos pais?
SÉRGIO - Não. Agente nunca teve este tipo de problema porque, na verdade, quando as pessoas colocam os seus filhos aqui já sabem que o esquema é esse. O portão está sempre aberto para receber quem quer participar, as pessoas passam e olham o que acontece aqui dentro. Tem pretinho, tem branquinho, tem baixinho, altinho, gordinho, magrinho, gente saudável, com alguma deficiência, tem gente de tudo quanto é jeito. Mas eu não estou muito preocupado com o que as pessoas estão pensando não!!! Se quiser pode vir aqui, se não quiser que Deus te abençoe.

3cucas – Como surgiu esta casa?
SÉRGIO - Eu dirigi o Teatro Antonio Fagundes há alguns anos e, num Sábado em que estava no teatro, o segurança me liga falando que tinha uma senhora com um grupo de 30 crianças querendo conhecer o teatro. Eu desci e vi que eram pessoas muito humildes. A senhora se apresentou, falou que era da Vila Autódromo e que dava aula de Teatro para as crianças, apesar de não ser professora de teatro.

Muitas daquelas crianças já haviam sofrido com violência sexual e doméstica. Na mesma hora me veio a idéia do projeto, que estava engavetado desde 2000. Eu levei as crianças para conhecerem o camarim, liguei o som, a luz, mostrei o computador que controla tudo, fiquei ali uma hora brincando com as crianças. No final pedi o telefone da senhora e falei para ela que iria arrumar um professor de teatro para estas crianças, todo sábado.


No início era só um professor, mas as crianças chegavam com fome e acabavam passando mal, aí passei a dar comida, passagem, e foram aparecendo mais professores, e no fim havia 6 professores. Mas como entrava dinheiro, eu não estava nem aí. Isso aconteceu durante quatro anos. Só que eu acabei saindo do Teatro no qual eu ganhava muito mais do que eu precisava e não tinha mais como custear o projeto.

Andando com uma amiga por aqui, eu entrei por aquela porta e meu coração disparou, e senti que aqui é que eu tinha fazer o meu trabalho. Só tinha um problema: Eu não tinha dinheiro. Essa minha amiga me apoiou e me pediu o telefone, ligou, nós explicamos as nossas intenções com a casa, do trabalho.

Na mesma hora ela falou que se até o dia 4 de março eu estivesse com dez mil e duzentos reais que é o equivalente a três meses de aluguel, eu poderia ficar na casa. Isso era 15 de fevereiro, eu perguntei se já podia entrar na casa contando com a fé. Ela falou que podia. Eu entrei e fui para internet tentar arrecadar dinheiro e apareceram trinta mil reais, que me possibilitou pagar o aluguel, fazer a estrutura da acrobacia aérea e a primeira sala de dança.

O resto foi aparecendo. Eu olho para trás e nem sei como foi acontecendo. Eu costumo falar que é um milagre. E todo mês acontece um milagre porque o gasto mensal é de aproximadamente 12 mil e eu não consigo mais que três mil.

3cucas – É o seu projeto de vida?
SÉRGIO - Sim. Não só essa casa, que é a primeira. Depois dessa espero montar muitas outras.

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